Daniel Weinmann – Engage

23.fevereiro.2012

“A gente está experimentando maneiras de botar em prática nossa visão de mundo.”

Eu me criei no meio de uma galera bastante hippie. Cheguei até a morar em uma comunidade quando tinha uns 7-8 anos. Meus pais se mudaram para uma casa enorme com um monte de gente, e tínhamos até uma escola dentro da comunidade. Quando era mais novo eu não gostava tanto, mas hoje vejo que essa visão de liberdade, de fazer o que você quiser e depois pensar nas consequências, tem bem mais pontos positivos do que negativos. Meu pai era professor de história e hoje ele é professor de psicologia na UFRGS. Minha mãe é funcionária pública e socióloga. Hoje, meu pai nem lembra o meu pai dessa época: ele é bem certinho. Mas minha mãe ainda tem um pouco desse espírito hippie. Essa experiência foi bem relevante para a minha infância porque vivi coisas diferentes das que uma criança costuma viver. Por exemplo, eu já sabia ler e escrever, estava de saco cheio dos professores e dizia para meus pais que eu queria sair do colégio. Eles fizeram uma reunião na comunidade e decidiram que tudo bem… e eu tinha 6 pra 7 anos. Assim, eu não fiz a primeira série, pois eu já sabia ler desde os 5 anos. Depois, eu decidi voltar, entrei direto na segunda série e foi muito bom.

Eu nunca gostei muito da escola, mas gostava dos meus amigos. No segundo grau fui para o técnico em processamento de dados, mais pelo fato de que meus amigos estavam fazendo do que qualquer coisa. Antes mesmo de ter aula de programação, eu estava no laboratório e um colega me mostrou um programinha. Fiquei maravilhado e corri pra biblioteca pegar um livro de Basic. Fiquei encantado e viramos os hackers da escola. Fazíamos programinha para pegar senha de todo mundo. Com 15 anos comecei a trabalhar como programador e com 17 me juntei com outros dois colegas e abrimos uma empresa informal que vendia software. Eu comecei a me interessar por negócios, já que não fazia ideia de quanto cobrar por software. Em paralelo, me apaixonei pela música e comecei a tocar guitarra e fazer shows com minha banda.

Em 2000 comecei a trabalhar em uma empresa que fazia pesquisas de preços por meio de robôs de busca (na época, o Buscapé estava começando) e também fazia aplicativos pra Palm Pilot. Chamei o Diogo, que é um dos nossos sócios, e ele chamou o Juan, que também é nosso sócio e meu amigo mais antigo, da mesma galera hippie. A gente tinha muito problema com projetos de software usando metodologias tradicionais, antes de conhecer metodologias ágeis de desenvolvimento de software (na época ainda não existia o SCRUM). Aí um estagiário nosso nos mostrou o XP – ou extreme programming. No início eu fui bem relutante, mas aos poucos ele foi me mostrando como eram as coisas na vida real e eu tive que aceitar.

Quando saímos dessa empresa no final de 2004, tínhamos duas certezas: não queríamos ter chefe e queríamos trabalhar em uma empresa mais legal. Assim, decidimos abrir nosso negócio, pois não existia uma empresa como a gente queria em Porto Alegre, nem que trabalhasse com métodos ágeis. Na época, éramos vistos como os rebeldes. Mas, antes mesmo de abrir a empresa, eu saí porque queria me dedicar à música e fiquei dois anos tocando, vivendo só de música. Depois, eles me chamaram para fazer a parte financeira como freelancer. Mas logo vi que aquilo fazia sentido e pensei: “quer saber? Vou entrar como sócio”. Foi nesse momento que a gente chamou a empresa de Softa, que é como um rapper diria a palavra “software” (quase todos os sócios tocam algum instrumento musical). No começo, a Softa era basicamente uma prestadora de serviços. Depois, enquanto a gente prestava serviço, também investia em startups de SaaS, como o Mailee.

Mas aí, em 2010, aconteceram um monte de coisas. Eu conheci o crowdfunding e decidi entrar de cabeça e fazer o Catarse, mesmo com a Softa totalmente focada no Mailee na época. Ao mesmo tempo, todos nossos sócios tinham outros projetos sociais que tocavam em paralelo. E a gente foi conhecendo melhor a vida de startup – e vendo que não era pra nós. Nessa mesma época, nos aproximamos bastante do pessoal da Quavio, começamos a dividir projetos e depois o mesmo escritório. E foi nesse contexto que surgiu a Engage, como uma consolidação de várias coisas que estavam acontecendo: a fusão da Softa com a Quavio, a popularização do Catarse e da cultura crowd, nosso entediamento com a vida de startup e, principalmente, nossa vontade de fazer coisas realmente relevantes para a sociedade.

Hoje a Engage se define como uma incubadora de projetos de inovação social. Mas a verdade é que a gente está experimentando maneiras de botar em prática nossa visão de mundo. Hoje o caminho de incubar projetos desde sua concepção até a autonomia nos parece o melhor, mas se isso mudar – e provavelmente vai mudar – a gente muda junto.

Postado: Fevereiro 23, 2012

Idade: 29

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